Os dias inteiros, naquela casa cujo frontispício apontava para o jardim do British Council. O verdume e a luz preenchiam a sala e a escrivaninha do acervo de uma escola, por debaixo do recanto das águas furtadas, observava um melro bicando migalhas no parapeito. Via-a abanar as pernas dobradas na chaise long deitada a ler. Da mesa da cozinha percebia-lhe a ansiedade na ponta das unhas púrpuras dos pés, levantou a sua atenção, os sinos da Basílica da Estrela soavam as oito horas. Já não conseguia discernir os livros abertos, dos telhados, nem a cúpula da basílica recôndita no Tejo, entretanto, reparava-a no seu jeito adormecido a trincar as cerejas, parecia apagar-se na escrita e uma das suas pernas cruzadas, debaixo da cadeira, desligava-se da outra. O pássaro saciara a fome e notei-a enquanto esticava a sua mão esguia para apanhar o maço de Slims e espiava através da janela indiscreta. Deste 4º andar os retalhados terraços das traseiras parecem minúsculos e divididos pelas linhas das antenas, mas preenchidos de muitos acontecimentos, as pessoas realizam as suas acções alheias a um mirar curioso. Na cozinha, sente pulverizado o cheiro de cominhos, ela roda na chaise long e o olhar desliza da rua para a parede do corrredor onde estão marionetas orientais coloridas e reluzentes. Pressenti-a deixar cair o seu corpo sobre si mesma na secretária, o lápis tombou. Segue-lhe o percurso até aos desenhos pousados no chão. No seu sono arrasta o pé sobre aqueles esboços de nu. Adormecera.
Três mulheres lêem Proust na casa das águas furtadas. Uma na cozinha, outras duas repartidas por uma chaise long e uma secretária na sala, entram na própria leitura, acumulada ao longo das horas e dos dias. Os sete volumes tecem as suas interpretações literárias, numa malha cada vez mais densa e asfixiante, passando a revelar as três identidades indissociáveis, num múltiplo espelhado de personagens e identificações. O encontro de todas as figuras é esperado num momento em que as fronteiras se perdem e onde todas as efígies se relacionam livremente evocando a sinistra e bizarra festa final em Mulholland Drive de David Lynch. Aqui há lugar para o absurdo provocado pelo estranhamento e vertigem associado a um tempo que não se sabe reencontrado ou reinventado, numa circularidade aterradora.
No baile barroco tudo parecia estar em câmara lenta, vemos as colegiais a tagarelar com as jeunes filles rindo-se de modo agudo em gargalhadas confusas que se misturam umas com as outras. O barão de Charlus surge entre elas, parece querer caçá-las e aprisioná-las, mas elas escapam-lhe como ninfas. Ao longe, ouvimos uma varina regatear por um chapéu com arranjo desmesurado de flores frescas de Verão, que pertencia, evidentemente, à Deusa sazonal Odete de Crécy cujas rugas actuais se confundem com as ramificações da flora. No meio daquela desordem visual, os sentidos não se apuravam, tudo soava confuso, mas podíamos reconhecer uma ou outra palavra estrangeira no meio da música alta, todavia invisível. A rapariga da chaise long desapareceu entre os corpos, vultos e espectros.
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